PRÁTICAS DE INTERVENÇÃO PRECOCE


Pressupostos da Intervenção Precoce

(Este texto são fragmentos da tese de mestrado apresentada na Faculdade de Motricidade Humana)





Uma sociedade que se considere democrática, tem como principal pressuposto a participação igualitária de todos os seus membros. No entanto a verdade é que é licito assumir que as sociedades não são, na sua essência, igualitárias tornando-se a desigualdade um tema transversal e comum a todos os âmbitos da vida. As práticas de Intervenção Precoce podem e devem constituir-se como dinâmica para potenciar a participação comunitária e forma de enfrentar, mediante a implicação colectiva, a atenuação ou eliminação de barreiras, económicas, socioculturais e, ou psicofísicas que são experienciadas no seio de muitas famílias.
Na actualidade, em Portugal, a Intervenção Precoce apresenta-se numa fase de transformação que se traduz, por um lado, por uma necessidade de clarificação (sentido centralizador) de conceitos, filosofias e de concepção organizacional; por outro num cariz descentralizador, no sentido de permitir a tomada de decisão local e aceitando por inerência as diferenças de intervenção e o poder das interacções que se produzem em equipas locais e localizadas. É a estas equipas que se vai imputando a tarefa de operacionalizarem os equilíbrios necessários para a qualidade de qualquer acção, ou seja, aqueles que se estabelecem entre os princípios teóricos e os princípios práticos.
É nosso propósito contribuirmos para a discussão em torno deste tema. Fazendo-o a partir de alguns pressupostos teóricos na tentativa de conseguirmos delinear um quadro de acção que tenha como principal matriz uma qualidade de intervenção que seja, um meio e não um objectivo alcançar.
Foi sobretudo, com as investigações de Piaget (1959) e a defesa da existência de interacção entre factores biológicos e factores ambientais que a intervenção precoce começou a delinear-se com os princípios essenciais com que hoje é descrita, na generalidade, pela maioria dos investigadores. É unânime a ideia de que as investigações feitas na área do desenvolvimento infantil facilitaram a compreensão de alguns processos ontogenéticos. Uma compreensão que tem permitido obter verdadeiras conquistas na implementação de modelos de intervenção precoce destinados a crianças de risco (Leitão1989a). Em última análise as investigações permitiram reunir um conjunto de argumentos de modo a fundamentarem os pressupostos da intervenção precoce enquanto mais valia no desenvolvimento de crianças consideradas em risco ou em situação de deficiência.
É durante o período da primeira infância que os seres humano denota maior sensibilidade aos factores envolventes, sejam eles físicos e, ou sociais. É neste período que ocorrem grande parte das transformações, tanto ao nível do crescimento como do desenvolvimento. Centrando-nos na perspectiva de Piaget é na ontógenese que se verifica uma maior relação entre o indivíduo e o meio. Esta apresenta, em interacção contínua, um aspecto biológico e um outro social. O primeiro engloba a maturação do sistema nervoso e endócrino enquanto que os segundo diz respeito à integração social (Fonseca, 1989). O ser humano possui a capacidade de, através do cérebro, fazer aprendizagens complexas. No entanto toda a actividade cerebral só existe numa estreita ligação com o movimento corporal. “o corpo e o cérebro encontram-se indissociavelmente integrados por circuitos bioquímicos e neuronais reciprocamente dirigidos de um para outro” (Damásio, 1996: 103). O tecido cerebral, é constituído por um sistema de redes específicas, transmitidas hereditariamente em cada espécie. No entanto, o ser humano estará, essencialmente na primeira infância, dependente de uma longa aprendizagem. Uma aprendizagem que se vai “inscrevendo” no cérebro pela repetição e experimentação, dando origem a novas ligações, organização e configurações neuronais. Segundo Wallon (1979) o desenvolvimento da criança não é mais que uma integração sucessiva de fases que, não se sobrepondo, se vão “encaixando” entre si no sentido de uma complexidade crescente. Deste modo existe, segundo Piaget (1983), uma equilibração progressiva, um movimento contínuo de um estádio de menor equilíbrio a um outro de equilíbrio superior. Este processo desenvolve-se num sistema de implicações de ordem biológica, psicológica e social. Um processo impregnado de significações solidárias, um conjunto de estruturas que se equilibram e se vão progressivamente organizando em espiral. No entanto, se algum elo desta cadeia se apresenta comprometido, seja na área biopsicológica, seja na área social, a criança denotará mais ou menos problemas de desenvolvimento constituindo-se como uma excepção ao percurso que vulgarmente se denomina de padrão normal de desenvolvimento.
Para que a criança se desenvolva naturalmente é necessário que as suas bases neurológicas estejam intactas e que o meio social seja suficientemente estimulante e enriquecedor. No que diz respeito ao biológico muitos dos problemas que dai advém são irreversíveis, embora podendo ser atenuados. Enquanto que outros poderão ser evitados se existir uma intervenção o mais precocemente possível. Se a problemática for detectada nos primeiros estádios de desenvolvimento a criança tem grandes hipóteses de construir novas aprendizagens. Esta possibilidade advém do córtex cerebral. Antes da lateralização se ter actualizado a equipotencialidade dos hemisférios torna-se preponderante. Segundo Richelle (1976), quase todos os estudos, nesta área, se encaminham no sentido de concluir que uma vez fixadas, nas respectivas posições, as funções cerebrais, se sujeitas a alguma agressão, não se denotam passíveis de reajustamento. À medida que o indivíduo vai crescendo, os tecidos e as células vão-se tornando cada vez mais especializadas o que confere às funções fisiológicas, realizadas por esses tecidos, também uma maior especialização. Este processo é denominado de diferenciação uma vez que, quando ainda não existe grande diferenciação entre os tecidos cerebrais, estes apresentam uma maior capacidade de reajustamento a funções diferenciadas. No final dessa diferenciação observa-se uma perda de plasticidade. Este processo, de reajustamento e fixação final, é denominado pelos embriologistas como: regulação e determinação. Deste modo, podemos dizer que se por um lado ao verificar-se qualquer tipo de lesão orgânica cerebral esta se torna irreversível, o mesmo pode não acontecer para o déficit dai resultante se existir uma intervenção atempada e considerando-se os períodos previligiados do desenvolviemtno. Neste perspectiva, na maioria das vezes, as perturbações com o decorrer dos tempo desaparecem, não porque as células danificadas se renovem ou curem mas porque se assiste a uma transferência de funções para outras zonas que anteriormente tinham outras funções. Se existirem estímulos significativos, pode até suceder a activação de aportes do cérebro que anteriormente não tinham função específica a desmepenhar. A ser verdade esta precoicidade, em situação de ruptura biológica ela não o é mensos em casos de meios sócio-culturais pobres em estímulos. De acordo com Aljurriaguerra & Marcelli (1986), para que a maturação se realize é necessário que tenha havido um conjunto de experiências enrtiquecedoras. Na realidade a criança necesita de estímulos para a sua organização. Por isso e, como já referimos, o desenvolviemtno de uma criança não está só dependente da integredidade do sistema nervoso central. O meio é grande responsável pelo forneciemtno de estímulos para que essa maturidade se processe de uma forma correcta. Assim, independentemente da causa, biológica ou social, em situação de ruptura pode surgir um desvio relativamente ao padrão de desenvolviemtno normalemnte esperado. A criança pode apresentar um grau de atraso de desenvolviemtno normalemnte esperado. Como temos vindo a referir os factores que contribuem para este desenvolviemtno atípico podem ser diversos: i) orgânicos; ii) genético e, ou iii) ambientais. Estes factores podem surgir no peróiodo pré, peri ou pós natal. Enquanto as crianaçs que apresentam 2um desenvolviemnto padrão” integram o conheciemtno de forma mais ou menos espontânea, retirando e organizando as informações do meio. As crianças com problemas necesitam que lhes seja facilitada a aquisição de competências. Para que isso aconteça é necessário proporcioanr estímulos nos entido de facilitar à criança a realização de experiências que levem à sua autonomia. Assim, a intervenção deve ser feita o mais precocemente possível.


 

A abordagem ecosistémica e o actual modelo de Intervenção Precoce

Actualmente, entendemos as práticas de Intervenção Precoce enquadradas num modelo conceptual que se refere à intervenção num “espaço social” enquanto “complexidade”, composto por vários componentes ou “áreas sociais” que se interrelacionam denotando-se interdependentes (Barata, 1990). O modelo ecosistémico implica equacionar o contexto em que a criança se insere, como factor determinante no desenvolvimento da mesma. Desenvolvimento que começa a ser encarado não como uma sobreposição de etapas, mas sim como um processo contínuo e interdependente de múltiplos factores que se interpenetram, influenciando-se mutuamente, seja de modo positivo ou negativo (Andrada, 1998). Nesta perspectiva a especificidade dos recursos que são alencados para cada criança e família concretas, só serão realmente efectivos se tivermos em conta a perspectiva ecológica, no sentido em que se apreendem as especificidades das realidades sociais quando inseridas em contextos mais vastos, ou seja, os fenómenos sociais enquanto totalidade (Bertrand & Guillemet, 1994; Gurvitch, 1986). Esta totalidade, em IP, pode ser vista enquanto base de um princípio colaborativo entre serviços e entre estes e as famílias, no pressuposto de promover o seu bem estar, assim, como o das crianças, cujo desenvolvimento harmonioso esteja em risco devido à interacção de factores biológicos e envolvimentais (Thurman, 1997). Esta interacção entre factores, de sistemas diversos, inscreve-se na Teoria Geral dos Sistemas (Bertalanffy, 1968), sendo cada sistema, individualmente, considerado como um todo, um conjunto complexo de elementos em interacção dinâmica (Bertrand & Guillemet, 1994). A abordagem ecosistémica apresenta segundo Bertrand & Guillemet, (1994) as seguintes características:
Abertura – qualquer sistema é sempre considerado possuindo uma estrutura e sendo mais ou menos aberto, uma vez que estabelece diversas “trocas” com outros sistemas;
Complexidade – qualquer sistema é composto por subsistemas que se interpenetram estabelecendo hierarquias;
Finalidade – os microsistemas interagem em função de finalidades específicas, caracterizando o sistema na sua totalidade e conferindo-lhe, no seu todo, uma finalidade específica que não é a soma das finalidades dos microsistemas;
Tratamento – qualquer sistema estabelece dinâmicas com o seu meio;
Totalidade – qualquer sistema é sempre caracterizado enquanto identidade única, ultrapassando a soma das suas partes;
Fluxo – os sistemas são caracterizados pelas trocas que estabelecem com o meio e com outros sistemas;
Regulação – a interdependência e as trocas estabelecidas são reguladas tendo em conta o objectivo final do próprio sistema;
Retroacção – troca de informação entre sistemas de modo a estabelecer-se regulação;
Equilíbrio – qualquer sistema procura preservar algum equilíbrio, no sentido em que estabelecem relações harmoniosas entre os seus componentes e as forças que possui,
Entropia – qualquer sistema apresenta, em determinado momento, situações de desordem na perspectiva de ser criada uma nova ordem.
Uma outra característica referida por Ferreira; Abreu & Caetano (1996) é o principio da equifinalidade, ou seja, a capacidade que qualquer sistema aberto denota no sentido de alcançar o mesmo estado final, utilizando percursos distintos, mesmo pressupondo condições iniciais diferenciadas. Este modo de conceptualizar e intervir no âmbito da IP advém do contributo de vários investigadores, nomeadamente, de Sameroff & Chandler (1975). Segundo estes autores o modelo transaccional encara a família como um sistema essencial, de entre outros sistemas, em que a criança se desenvolve. Esta exerce influência e é influenciada num processo contínuo e dinâmico. Um processo que resulta na construção e na interacção de aspectos diferenciados para ambos (família e criança).
No entanto a abordagem da Intervenção Precoce, no âmbito do modelo ecológico, surge verdadeiramente a partir do trabalho de Bronfenbrenner (1979) intitulado Ecologia e Desenvolvimento Humano. O modelo sistémico é visto, assim, como um processo dinâmico no qual os indivíduos interagem directa ou indirectamente com todos os contextos, (re)estruturando-os e criando-se deste modo, reacções contínuas em todos os sistemas. Na perspectiva deste modelo, a Intervenção Precoce ao ser encarada como uma acção humana, é o resultado da interacção entre indivíduos (sistemas) em determinado ambiente. Muitos outros autores vão partir desta ideia para delinear a IP enquanto modelo de acção inscrito na teoria ecosistémica. Sendo que o ecosistema é composto por: microsistema, mesosistema, exosistema e macrosistema, são descritos por Thurman (1997) da seguinte forma:
Microsistema – são os contextos mais próximos da criança, incluindo os próprios comportamentos desta, em diversos ambientes como na família, nas instituições escolares, nos hospitais, etc;
Mesosistema – é representado pela interacção entre microsistemas. Embora cada microsistema seja distinto também interage com outros microsistemas que se situem em seu redor;
Exosistema – é representado por estruturas sociais, não incluindo directamente a criança. O sistema escola, o sistema económico e o espaço de trabalho fazem parte do exosistema. Os factores do exosistema têm impacto directo no meso e microsistema mas não directamente na criança;
Macrosistema – rodeia todos os outros sistemas e é definido pelo conjunto das crenças e convicções gerais, valores e ideologia de determinada cultura ou subcultura específicas.
Assim, por perspectiva ecológica, no geral e sobretudo no contexto da IP, entende-se uma dialéctica constante entre sistemas, num desenvolvimento restaurador constante. Possuidores de uma interdependência dinâmica, qualquer mudança em qualquer dos sistemas repercute-se, directa ou indirectamente, noutros sistemas (Serrano & Correia, 1998). Deste modo as mudanças que ocorrem em qualquer sistema são o resultado de mudanças das condições de determinado ambiente, das condições dos indivíduos, por referência a esse ambiente ou da interacção entre ambos. Deste modo, interessa, sobretudo, reconhecer e analisar as causas dessas mudanças (Thurman, 1997).
Baseada na perspectiva em que alguns contextos, embora não directamente em interacção com a criança, assumem uma importância vital, Hebbeler (1997) defende que a IP, ao nível sociopolítico, se constitui enquanto sistema dentro de outro sistema mais vasto. Esta autora refere a enorme importância que tem a interacção das forças sociais e políticas com o processo específico da Intervenção Precoce. Desta forma, a IP pode ser influenciada seja num sentido de contracção ou de expansão por factores que lhe são completamente exteriores (Hebbeler, 1997). As mudanças no sistema económico também afectam elementos da sociedade e, a diversos níveis, a IP, enquanto sistema. Esta apresenta-se-nos, assim, como um sistema bastante vulnerável às mudanças ocorridas no macrosistema (Kates, 1997). Sameroff & Fiese (1992) referem que, tendo em conta o modelo ecológico, a IP sofre regulações a vários níveis do sistema:
Macroregulações – os códigos macroregulatórios são, numa determinada cultura, a base da socialização. São no fundo, os comportamentos que determinada comunidade espera dos seus elementos. As macroregulações estão, de algum modo, ligadas a factores sociais mas também naturais. Qualquer situação que marque uma sociedade pode reflectir-se em mudanças em todos os sistemas e, por influências indirectas, (re)estruturar os comportamentos da criança.
Miniregulações – estes códigos influenciam directamente os sistemas mais próximos. Influenciam as actividades diárias de uma família, operando e reflectindo essas mudanças dentro da mesma.
Microregulações – consistem em códigos que operam numa base de tempo menor. Advêm das interacções momentâneas entre a criança e o profissional e entre alguns elementos da família. São uma mistura de códigos biológicos, inferindo o aparecimento natural e mesmo alguma automatização de determinadas situações.
Tendo por base a perspectiva sistémica, não parece razoável “copiar” integralmente programas de Intervenção Precoce. A implementação de cada um dos programas, bem como as práticas que lhe estão inerentes devem ser sensíveis aos contextos reais nos quais as famílias interagem. O que é significativo para uma família que vive em determinado contexto, pode não ser para uma outra que vive num contexto diferente. Assim, a implementação de qualquer programa de Intervenção Precoce deve ser sensível a uma diversidade sociocultural, utilizando práticas e procedimentos que se baseiem num modelo conceptual que centre, preferencialmente, a intervenção na família, vista enquanto sistema (Iglesias & Quinn, 1997).


 

Uma Intervenção Centrad na Família, Baseada nos Recursos da Comunidade e Desenvolvida por Equipas Interdisciplinares

Deste modo a intervenção precoce deve ser encarada, actualmente, como um conjunto de práticas em rede que equacionam respostas para determinada criança enquanto entidade social. Este paradigma de acção implica que a intervenção precoce seja, cada vez mais, equacionada tendo em conta a seguinte triangulação: uma intervenção centrada na família, baseada nos recursos da comunidade e desenvolvida por equipas interdisciplinares.


Uma intervenção centrada na família

Uma intervenção centrada na família reconhece que é essencial o desempenho, por parte desta, de um papel activo em todo o processo devendo a sua cooperação ser reconhecida e respeitada. Segundo Dunst & Deal (1994) este pressuposto implica determinados procedimentos como: i) identificação das necessidades da família; ii) localização de suportes e recursos informais e formais, no sentido de responder a essas necessidades e iii) apoiar as famílias de modo a que (re)conheçam e utilizem as suas forças e competências, para poderem ser elas próprias a acederem, de modo autónomo, aos recursos de que necessitam para que “fortaleçam” o seu funcionamento. Estes autores defendem, ainda, que a conceptualização deste tipo de práticas deve ter em conta as seguintes características:
· Abrangência e flexibilidade – a intervenção deve ser baseada num processo fluido, de forma a reunir, trocar e utilizar informação com o propósito de identificar as necessidades, as forças e os recursos das famílias e assim se obterem respostas que estejam em consonância com as suas necessidades;
· Individualidade – a intervenção deve ser um processo individualizado de forma a respeitar os desejos e prioridades das famílias, relativamente aos seus filhos e à família no seu conjunto;
· Respeito pelas diferenças – a intervenção deve ser um processo que aceite os valores da família e as suas convicções culturais. Esta constrói-se no sentido de respeitar a vontade das famílias em partilhar informação e o desejo das mesmas em participar ou não no processo de intervenção.
Só a partir da compreensão dos comportamentos específicos de cada elemento da família bem como dos pressupostos de identidade desta, poderemos entender e respeitar o seu funcionamento e intervir de modo a facilitar processos de corresponsabilização e estabelecer entre os vários parceiros implicados uma base de compromissos (Shultz-Krohn, 1997). Esta base de compromisso só é possível se acreditarmos que todas as famílias: i) possuem factores positivos e que estes são o ponto de partida da intervenção; ii) possuem sistemas que lhe permitem (re)transformar as práticas e os recursos em competências e que iii) através do seu envolvimento activo adquirem e transmitem aos profissionais novos conhecimentos e capacidades no sentido de reforçarem competências, responsabilidades e o próprio sentido de confiança.
Numa perspectiva de sistemas complexos e multidimencionais, em contínua interacção, não podemos ignorar a comunidade em que a família se insere enquanto quadro de referência mais vasto (Gallagher & Tramill, 1998). Uma vez que a família interage com outros agentes da comunidade, será de toda a conveniência que olhemos para essa comunidade como a maior base de suporte e fonte de recursos para qualquer tipo de intervenção.


Uma intervenção baseada nos recursos da comunidade

A comunidade no seu todo mas, sobretudo, as `”áreas sociais” mais imediatas ao sistema família e em interacção directa com esta, promovem variadas experiências que constituem a história de vida de cada uma das famílias, sempre vistas como integradas em grupos sociais diferenciados e concretos. No fundo, é a comunidade envolvente que permite a partilha de valores e a integração de determinada identidade cultural que objectiva causas comuns. Nesta perspectiva, a especificidade dos recursos que são alencados para cada criança e família concretas, só serão efectivos se tivermos em conta os ambientes, mais ou menos alargados, que envolvem a criança. Assim, uma intervenção centrada na família fará sentido se esta for baseada nos recursos da comunidade. Uma perspectiva que encara um variado leque de pessoas e organizações da comunidade como fonte de apoio, de modo a satisfazer determinadas necessidades da família e essencialmente da criança. Recursos que são encarados como um potencial ilimitado e amplamente disponível, de modo a serem utilizados sempre que necessário. Uma intervenção baseada nos recursos da comunidade é caracterizada, segundo Trivette; Dunst & Deal (1997) por:
· Um enfoque na comunidade – as respostas são definidas tendo em conta o “mapeamento” dos recursos existentes na comunidade, numa perspectiva abrangente dos serviços;
· Um paradigma sinergético – os recursos devem ser flexíveis, diversificados, individualizados e adequados às necessidades das famílias;
· Uma teia de suportes formais e informais – os esforços para (re)conhecer as necessidades das famílias e intervir implicam a mobilização de suportes formais e informais, de modo a constituir-se na comunidade uma “teia” de suporte e apoio;
· Um reconhecimento das “forças” – a intervenção baseia-se nas “forças” individuais e colectivas da família;
· Um esforço no sentido das soluções serem equacionadas no interior – Os recursos são organizados e facilitados de modo a responderem ás necessidades e desejos específicos de cada família.
Ainda segundo os autores anteriormente referidos as práticas de intervenção precoce baseadas nos recursos da comunidade envolvem: i) identificar as forças da comunidade, grupos e subgrupos; ii) identificar quais dessas forças constituem respostas às necessidades da criança e da família e iii) eliminar barreiras á utilização dos recursos mais próximos da família bem como de outros, numa perspectiva de contextos cada vez mais alargados. Estas práticas encorajam, para além da família e dos profissionais, outros elementos e grupos da comunidade, a interrogarem-se sobre realidades que os envolvem e sobre a natureza dos próprios serviços que são disponibilizados. Este tipo de intervenção promove a mobilização de vários profissionais e a confluência de vários saberes disciplinares. Por este motivo defende-se a criação de estruturas abrangentes, operacionalizadas em equipas interdisciplinares, de forma a responderem de forma mais eficaz e eficiente à diversidade das necessidades das crianças e respectivas famílias (Gallagher & Tramill, 1998), ou seja, à dimensão complexa e multidimensional que caracteriza a intervenção precoce enquanto acção humana.




Uma intervenção desenvolvida por equipas interdisciplinares

No âmbito da intervenção precoce quando não existe comunicação efectiva e um trabalho cooperativo entre os diversos profissionais assiste-se, muitas vezes, a um sucesso dependente de um sistema de suporte que se desenvolve e organiza (profissionais, serviços e responsabilidades administrativas) baseado numa aproximação à estrutura categorial. Sem um compromisso entre cada um dos profissionais e entre estes e a família os serviços tendem, muitas vezes, a agir de modo fragmentado e inconsistente (Bailey; McWilliam; Winton & Simeonsson, 1992). Assim, pretende-se que o sucesso tenda a depender da capacidade de trabalhar e fomentar a intervenção em conjunto (Gallagher; LaMontagne & Johnson, 1998). A actividade na área da intervenção precoce deve ser assegurada por equipas que envolvam profissionais diferenciados e promovam serviços abrangentes. Como refere Hartford (1983) se para resolvermos determinado problema necessitamos da incorporação do conhecimento, informação e julgamentos que superam o que um único indivíduo pode possuir, então o produto de uma equipa pode ser superior.
A equipa interdisciplinar é o modelo, actualmente, defendido. Neste tipo de equipa a comunicação entre os vários profissionais e entre estes e a família é salvaguardado. É fundamental que todos os profissionais trabalhem em conjunto e de modo colaborativo. Weston; Ivins; Heffron & Sweet (1997) referem-se a este enfoque nas relações entre os diversos profissionais, serviços e famílias, numa perspectiva colaborativa, como um novo construto organizacional no âmbito da intervenção precoce. Um construto que denominam de abordagem “centrada nas relações”. Uma colaboração que implica a partilha de objectivos, comunicação aberta e efectiva e a vontade crescente de discutir e resolver problemas como uma verdadeira equipa (Sandall; McLean; Santos & Smith, 2002). A intervenção desenvolvida por equipas interdisciplinares e com cariz interserviços possibilita que: i) sejam rentabilizados recursos; ii) evitem-se sobreposições de respostas, iii) aproximem-se os serviços das famílias e iv) sejam encontradas respostas não fragmentadas. Um modelo organizacional que se centre nas interacções humanas e enfatize a importância da equipa e da interacção dos seus elementos para, entre si, construírem relações e estratégias de trabalho. Esta opção de intervenção revela-se mais complexa, do que à priori pode parecer. O pressuposto de que o simples facto dos profissionais agirem em equipa transforma cada uma das suas acções, em modos bem diferentes aos que se verificariam se cada um desses profissionais pensasse, decidisse e agisse isoladamente, nem sempre é verdadeiro.
Ao formarem-se equipas de pendor colaborativo importa equacionar a tarefa a que estas se destinam mas, sobretudo, é importante ter-se em conta: i) os critérios com que são formadas as equipas; ii) o número e tipo de elementos que as compõem; iii) o seu grau de homogeneidade; iv) a motivação e nível de interesse de cada um dos profissionais em desenvolver a tarefa; v) a estrutura das próprias equipas e o tipo e meio de partilha de informação que é desenvolvido intra e interequipas. Estes factores, de entre outros, vão condicionar directa ou indirectamente a qualidade das relações interpessoais. Uma dimensão que condicionará toda a realização da tarefa que é acometida a determinada equipa.

Algumas implicações

Em qualquer área do conhecimento humano a configuração de novas conceptualizações implica a construção de novas formas de intervenção e, estes dois pressupostos, constituem uma primeira condição para o necessário reajustamento das atitudes e práticas dos profissionais e dos serviços que materializam essa intervenção. Para que na prática existam ganhos é essencial que: i) as políticas preconizadas objectivem claramente as actuais conceptualizações; ii) os normativos legais além de espelharem essas políticas contenham indicadores que operacionalizem, de modo geral, as práticas consonantes; iii) os serviços implicados assumam construtos organizativos ajustados às práticas preconizadas; iv) os serviços tenham condições objectivas de alencar recursos humanos e materiais considerados essenciais; v) os serviços facilitem entre técnicos e entre equipas a circulação da informação tanto na horizontal como na vertical; vi) seja facilitado aos técnicos formação complementar para que, sem desvirtuar o principio da diferenciação de papeis, estes possam adquirir novas competências e assumam comportamentos em consonância com o trabalho cooperativo; vii) a formação facilite aos técnicos a adequação de papeis e o seu ajustamento a novas funções; viii) a composição das equipas tenha em conta, não só o factor diferenciação de técnicos mas também a sua motivação e formação específica.
Assumindo estes aspectos, estamos convictos que as equipas interdisciplinares são a forma que garante maior qualidade e eficácia no âmbito da intervenção precoce. Essencialmente, se a perspectiva dessa intervenção tiver subjacente um apoio centrado na família enquanto entidade concreta e multidimensional que interage em contextos físicos, sócio culturais e económicos específicos.





Joaquim Colôa
Outubro de 2003


 

   
 

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http://www.edpn.org/InfoESSA89.htm
http://www.drec.min-edu.pt/cae/CBranco/page49.html
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